Quando um colaborador percebe que algo errado está acontecendo dentro da empresa — um gestor que assedia membros da equipe, uma fraude nos processos financeiros, uma política sendo sistematicamente ignorada —, o que ele faz? Na maioria das vezes, ele não faz nada. Não por indiferença, mas por falta de um caminho seguro para agir.
O canal de denúncias existe para preencher esse vazio.
O que é um canal de denúncias?
Um canal de denúncias é um mecanismo estruturado que permite que colaboradores, fornecedores, clientes e outros stakeholders reportem irregularidades, condutas antiéticas ou violações de políticas dentro de uma organização — com confidencialidade e, quando necessário, anonimato garantidos.
Mais do que uma caixa de reclamações, o canal é um sistema de gestão: recebe relatos, organiza a triagem, conduz a apuração e registra os desfechos. Quando bem operado, ele transforma uma preocupação individual em inteligência organizacional.
A definição técnica do professor Wim Vandekerckhove (2026), em Whistleblowing Management Systems and Speak-Up Cultures, é direta: o canal precisa ser capaz de registrar cada relato recebido, documentar as decisões tomadas no acompanhamento e garantir a confidencialidade em todo o processo. Sem esses três elementos, não há sistema — há apenas formulário.
O que pode ser reportado?
Há um equívoco comum: muitas empresas tratam o canal de denúncias como ferramenta exclusiva para casos graves, como fraude ou corrupção. Na prática, o escopo deve ser mais amplo.
Os dados da 11ª edição da Pesquisa Nacional de Canais de Denúncias, da Be.Aliant — com 245.518 relatos coletados em 2025 —, mostram que a distribuição das denúncias por categoria é bem diversificada:
- Relacionamento interpessoal (assédio moral, desvio de comportamento, discriminação): 49,2% dos relatos
- Má intenção e ilícitos (fraude, favorecimento, suborno): 15,9%
- Descumprimento de políticas e normas (não conformidades internas, violações legais): 13,9%
Ou seja: quase metade dos relatos envolve comportamentos que afetam o clima organizacional. Isso não diminui a relevância do canal — pelo contrário, mostra que ele funciona como termômetro da cultura da empresa, captando desde conflitos cotidianos até irregularidades críticas.
A recomendação das melhores práticas internacionais é clara: não limite o canal por tipo de irregularidade. Quem denuncia não deveria precisar categorizar o próprio relato para decidir se ele “se qualifica”. Isso é função da equipe de triagem.
Por que as pessoas não denunciam?
Se sua empresa não tem canal de denúncias, ou tem um canal que poucos utilizam, o problema provavelmente não é a ausência de irregularidades. É a ausência de um caminho seguro para reportá-las.
Pesquisa com mais de 800 casos conduzida por Vandekerckhove e Phillips (2019) revelou um padrão consistente: em 9 de cada 10 situações, a pessoa que percebeu uma irregularidade tentou primeiro conversar com seu gestor direto. A resposta mais comum não foi retaliação — foi ser ignorada. Só depois de tentativas frustradas as pessoas buscam outros caminhos: um canal formal, um gestor sênior, ou simplesmente o silêncio permanente.
Esse silêncio tem custo. Para a empresa, significa irregularidades que crescem sem controle, riscos que se acumulam sem sinal de alerta e uma cultura onde todos sabem o que acontece, mas ninguém fala. Para o colaborador, significa carregar sozinho o peso de uma consciência que não encontrou onde pousar.
A 11ª Pesquisa Nacional da Be.Aliant aponta os principais fatores que inibem o uso do canal:
- Medo de retaliação
- Desconhecimento da existência do canal
- Falta de confiança na efetividade do processo
- Cultura de silêncio enraizada
Números baixos de denúncias, portanto, não significam empresa saudável. Podem significar empresa silenciada.
Canal de denúncias e a construção de confiança organizacional
Há uma distinção importante que muitas empresas perdem: ter um canal não é o mesmo que ter uma cultura de falar. O canal é a estrutura formal. A cultura é o que acontece informalmente — o clima que determina se as pessoas se sentem seguras para levantar uma preocupação, seja por um formulário online ou numa conversa com o gestor.
A boa notícia é que um está relacionado ao outro. Quando o canal funciona — quando os relatos são levados a sério, os prazos são respeitados e os denunciantes percebem que houve consequência — a confiança cresce gradualmente. Um estudo de caso documentado por Vandekerckhove mostra que uma empresa de engenharia levou sete anos construindo essa confiança após um escândalo. Mas o resultado foi uma cultura onde as pessoas passaram a reportar diretamente às equipes de compliance, sem precisar do canal formal. O canal havia cumprido seu papel: tornar-se dispensável.
Esse é o verdadeiro objetivo.
O que os dados brasileiros revelam sobre maturidade
A Be.Aliant acompanha a evolução dos canais de denúncias no Brasil há mais de 20 anos, com uma base de mais de 2 milhões de relatos acumulados. Os números da edição mais recente da pesquisa mostram um setor em amadurecimento, mas ainda distante do potencial:
- A taxa de denúncias mensais chegou a 9,8 relatos por mil colaboradores em 2025, um crescimento contínuo desde 5,4 em 2021
- 64,7% dos relatos são feitos de forma anônima, o que indica que boa parte das pessoas ainda não se sente segura para se identificar
- O Tempo Médio de Apuração (TMA) é de 42 dias corridos — um indicador que as empresas precisam monitorar para não deixar denunciantes sem resposta por tempo demasiado
A taxa de anonimato, vale dizer, não é necessariamente um problema. Ela é um dado de diagnóstico: empresas com índices elevados precisam investigar se isso reflete medo de retaliação ou simplesmente uma preferência cultural pelo anonimato. São respostas muito diferentes e pedem ações muito diferentes.
Quem deve ter acesso ao canal?
Uma dúvida frequente é sobre o público-alvo. A resposta mais robusta é: todos que interagem com a organização.
Isso inclui colaboradores em tempo integral e parcial, prestadores de serviço, fornecedores, clientes e, em alguns contextos, comunidades afetadas pela operação da empresa. Os dados brasileiros confirmam essa diversidade: em 2025, colaboradores foram responsáveis por 66,8% dos relatos, mas clientes representaram 13,5% e fornecedores, 5,6%. A fatia de “outros stakeholders” — que engloba investidores, membros da comunidade e parceiros — cresceu para 10,1%, sinalizando que o canal transcendeu os limites internos.
Por que sua empresa precisa de um canal de denúncias
Há pelo menos três razões práticas:
Detecção precoce de riscos. Irregularidades detectadas internamente, por canais confiáveis, têm muito menos custo do que escândalos expostos externamente. O canal é, essencialmente, um sistema de alerta antecipado.
Cultura de integridade. A existência de um canal bem operado envia uma mensagem clara: a empresa quer saber quando algo está errado. Isso fortalece o vínculo de confiança entre colaboradores e organização — e reduz comportamentos oportunistas.
Conformidade regulatória. A Diretiva Europeia 2019/1937 exige que empresas com mais de 50 trabalhadores operem um canal de denúncias. No Brasil, a Lei Anticorrupção, a LGPD e normas setoriais crescentes apontam na mesma direção. Ter um canal deixou de ser diferencial e passou a ser requisito.
Por onde começar?
Se sua empresa ainda não tem um canal estruturado, o ponto de partida não é a tecnologia — é a política. Defina o escopo, estabeleça quem gerencia os relatos, garanta a confidencialidade do processo e comunique a existência do canal de forma clara e recorrente.
Se já tem um canal, a pergunta é outra: ele está sendo usado? Os relatos têm desfecho? Os denunciantes recebem algum retorno? Um canal que existe no papel, mas não na cultura, é tão ineficaz quanto não ter nenhum.
A Be.Aliant acompanha empresas em toda essa jornada — da implementação à maturidade operacional, com dados e benchmarks que ajudam a transformar volume em inteligência estratégica.
Quer entender onde sua empresa está nesse caminho? Fale com um especialista Be.Aliant.
FAQ — Perguntas frequentes sobre canal de denúncias
O que é um canal de denúncias corporativo? É um mecanismo formal que permite que colaboradores, fornecedores e outros stakeholders reportem irregularidades ou violações de políticas dentro de uma empresa, com confidencialidade e, geralmente, opção de anonimato.
Canal de denúncias é obrigatório por lei no Brasil? Não há uma lei federal única que torne o canal obrigatório para todas as empresas. No entanto, a Lei Anticorrupção (Lei 12.846/2013), a regulação do Banco Central, normas da CVM e setores regulados como saúde e energia criam obrigações específicas. Para empresas que operam na Europa, a Diretiva EU 2019/1937 impõe a obrigação diretamente.
Quais tipos de denúncia podem ser feitas no canal? Qualquer conduta que viole políticas internas, leis, normas éticas ou que cause risco à organização. Isso inclui assédio moral e sexual, fraude, conflito de interesses, discriminação, uso indevido de ativos, descumprimento de normas de compliance, entre outros.
Denúncia anônima tem validade? Sim. Denúncias anônimas têm validade e devem ser apuradas. O anonimato não invalida o relato — apenas reduz a capacidade de fazer perguntas complementares ao denunciante. A recomendação é tratar relatos anônimos com o mesmo rigor que os identificados.
Como saber se o canal de denúncias está funcionando bem? Os principais indicadores são: volume proporcional de relatos por colaborador (benchmark: 9,8/mil em 2025 no Brasil), taxa de qualificação, tempo médio de apuração (TMA), taxa de conclusão e o Net Trust Score (NTS) — que mede a confiança dos usuários no canal.
Fonte dos dados: Be.Aliant, 11ª edição da Pesquisa Nacional de Canais de Denúncias (2026), base de 245.518 relatos coletados em 2025. Referência teórica: Vandekerckhove, W. (2026). Whistleblowing Management Systems and Speak-Up Cultures. Springer.


